Um dia eu entrei em um ônibus, não era meu ônibus
ele fazia uma volta enorme mas, as voltas enormes dos ônibus
paulistanos são ótimas pra se pensar hora ou outra você pode
olhar pra fora e mudar de pensamento, como quem muda de canal...
Então ele entrou
Estava acompanhado por um amigo, com cara de dúvida
que pensava "rio ou me preocupo".
Ele estava bravo, ou melhor muito bravo, não
Estava indignado, não importa com o que
Estava indignado e isso era lindo
Não era uma indignação dessas que os estudantes
emprestam por um período curto dos livros
Nem era uma indignação de causa nobre e relevante
Era algo sobre um troco, centavos de troco que lhe negaram
Mas isso não importa
Era uma indignação sincera, pessoal, real
estava indignado, e como era lindo de se ver
levantava as mãos pra cima e pra baixo,
fazia o tão peculiar não com o rosto,
Eu podia ver, ouvir e sentir cada palavra
cada respiração, podia saber a velocidade das batidas
do coração naquele homem tão lindo, tão bravo
usando todas as expressões sinceras que guardamos pra crescer
o olhar de busca de compreensão,
indignado, certo, incompreendido
todo mundo devia ter se indignado diante de tão bela indignação
Me apaixonei por ele, minha indignação é tão pacata, vergonhosa.
Muitas vezes peguei aquele ônibus novamente
Nunca mas o encontrei
Só restaram os heróis surdos-mudos
Os que se conformam, ignorantes
Sobraram eles, e eles me davam raiva...
As risadas me davam raiva, a resignação, a felicidade
que levavam consigo não era apaixonante como ele.